BORDALEIROS - COBRAS E LAGARTOS
DE 31DE MARÇO A 24 DE MAIO DE 2026
Sede Adalice Araújo
Bordaleiros Cobras e Lagartos
“Se ele é humilde, manso (...)
também é sensível e arisco.”
Bordalo, sobre o Zé-Povinho
Uma ironia à beira da escatologia, um senso estético que dialoga com antigas escolas, uma procura pelo novo: eis três características importantes da obra de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). A ironia é uma marca curiosa da vida de Bordalo, ora vinda dele mesmo: caricaturista, jornalista polêmico, ilustrador político. A ironia presente na obra gráfica dele ganha as três dimensões na cerâmica, e pode ser vista tanto nas personagens que ele criou, em particular o Zé Povinho, como nas obras mais elaboradas, como o famoso “jarro Beethoven”, peça imensa e ricamente trabalhada, que se encontra no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Ora a ironia entra como penetra: o vaso em questão foi trazido ao Brasil ninguém quis comprá-lo, ele o rifou, o número sorteado não tinha sido vendido, o vaso acabou doado ao governo brasileiro e foi jogado de um lado a outro até ganhar um local seguro onde está até hoje. A história do jarro, assim como a história de Bordalo daria um bom livro repleto de situações picarescas.
Já o diálogo com outras escolas ocorre devido ao olhar perscrutador de Bordalo, interessado em diferentes técnicas, estilos, influências: um vaso (um centro de mesa) seu lembrará o rigor monotônico oriental (a despeito de aparecer nesse mesmo vaso um animal enrodilhado), galos e galinhas remeteram à arte popular (nada simplista, diga-se de passagem) e sopeiras ricamente trabalhadas farão menção ao (por vezes) rebuscado exagero da época dos Luíses franceses. O curioso - e o fascinante - na produção artística de Bordalo é justamente a mescla disso tudo ou ainda a simples coexistência disso tudo.
A novidade - já que aqui e ali Bordalo foi criticado como um mero copiador de técnicas e estilos locais - está em suas pesquisas pessoais, que envolveram viagens técnicas. A chamada “pasta branca vidrada” chega ao ápice em Caldas da Rainha com o olhar multicultural e a autêntica qualidade criadora de Bordalo, o que faz dele um dos grandes artistas do final do século XIX em Portugal.
Foi em 1883 que Rafael Bordalo Pinheiro e outros acionistas decidiram criar a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Ele seria um diretor criativo, também responsável pelos quesitos técnicos. A fábrica, de certo modo, dá sequência a um tipo de fatura comum em Caldas, chamado “à Palissy das Caldas”. Bernard Palissy tinha ficado famoso na França do século XVI por transportar para objetos cotidianos elementos naturais inusitados, invertendo, inclusive, a ideia de praticidade que tais objetos deveriam ter. Palissy não havia inventado nenhuma forma nova de naturalismo tampouco criado a possibilidade de produzir peças antropomórficas, peças com animais e plantas ou ainda peças com seres mitológicos esvoaçantes, isso era tão antigo como a própria história dos homens. Mas Palissy criara um estilo que, sem uma explicação muito clara, foi parar em Portugal - e depois relido e reinventado, de um modo que chega às raias do delírio, por Bordalo.
A reinvenção de Bordalo está no modo como ele mescla uma vontade popular com um gosto erudito, transportando para o barro vidrado uma longa lista de personagens folclóricos (alguns inventados por ele mesmo) que eram o rosto de Portugal. Seu talento de desenhista ganha uma forma inusitada nas peças, sejam as figuras populares (que se transformam em paliteiros, vasos para óleo, peças “de suspensão”, sejam os azulejos (numa mescla em diálogo aberto com o movimento Arts and Crafts inglês, com o que os críticos entendem como art nouveau, com o grotesco de longa tradição na Europa, este com várias facetas, desdobramentos e releituras) e demais peças para casa, como floreiras e mísulas.
Haveria muitas maneiras de dividir a obra de Bordalo, fazendo oposições ou grupos: o irônico/humor e o “sério”, a criação bidimensional e a tridimensional, as peças utilitárias e não-utilitárias, as peças mais artísticas e mais comerciais, entre outras possibilidades. Cada uma delas traz soluções para o entendimento da obra dele (e de sua visão de mundo, altamente politizada) e aquilo que não é abertamente irônico (como o caso dos azulejos que ele também produziu, um tipo de trompe l’oeil arrojado e de complexa manufatura).
Bordalo esteve no Brasil em três situações distintas (entre 1875 e 1899) e hoje suas peças são vendidas em lojas de grife em endereços sofisticados de Lisboa ou São Paulo.
Glauco Menta, colecionador e conhecedor das pesquisas estéticas de Bordalo, teve a ideia de convidar artistas ceramistas de modo que cada um relesse o imaginário criativo de Bordalo. cada um escolheu um viés de diálogo com o artista portugues (a ironia, o grotesco, a tradução de expressões linguísticas como “cobras e lagartos” para objetos, o zelo com a técnica) e produziu de um a três trabalhos, trazendo para os tempos atuais um certo modo de ver, sentir, produzir cerâmica. Obviamente, as técnicas são distintas - e isso fazia parte do processo e do desafio proposto pelo curador. Aqui, a argila é predominante, os esmaltes são outros, os fornos também.
O que o espectador verá é uma conversação, que cria uma ponte, primeiro entre os artistas atuais e Bordalo, e depois entre Bordalo e artistas anteriores, os de Caldas da Rainha, e depois outra conversa, entre estes e outros, ainda mais antigos, como uma grande corrente que se perde lá num passado remoto, o próprio passado do fazer cerâmico.
Benedito Costa Neto
Glauco Menta
Glauco Francisco Menta nasceu em Curitiba, em 1965. Graduado em Artes Cênicas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pós-graduado em História da Arte, Século XX, pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Mestre em Comunicação pela Universidade Tuiuti do Paraná. Atua profissionalmente em Artes Visuais desde 1985, tendo participado de dezenas de salões e exposições coletivas e individuais, tendo atuado, igualmente, como curador. Também trabalhou em teatro no mesmo período, em diferentes funções. Foi professor em diferentes universidades.
Regina Costacurta
Regina Costacurta teve sua formação acadêmica na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Fez curso de extensão em Técnicas de Impressões sobre a Cerâmica no I.U.N.A. em Buenos Aires, pós-graduada em Fundamentos e Ensino das Artes na Faculdade de Artes do Paraná. Participou como aluna especial das aulas de Cerâmica Gravada no curso de mestrado da Embap. Atualmente divide sua atuação profissional como designer na Secretária da Educação, no departamento de Comunicação e Produções Artísticas. A produção dos últimos anos atravessa temas relacionados ao feminino, o corpo cíclico da mulher, às memórias e à natureza como dimensão constitutiva do ser. Para a exposição “Bordaleiros”, produziu peças em alto relevo mesclando esse universo feminino com gatos, serpentes e folhas. Vive e trabalha em Curitiba.
Debora Santiago
Debora Santiago (Curitiba, 1972) é artista e professora no Campus Curitiba I – EMBAP/UNESPAR. Doutora (2020) e mestre (2007) em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina, bacharel em Escultura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná - EMBAP (1995). A artista vem desenvolvendo sua produção nas artes visuais desde meados dos anos 1990 junto a experiências em arte-educação. Desde os anos 2010 tem participado de projetos coletivos que discutem arte, educação e agroecologia. Participa de exposições no Brasil e exterior desde 1994. Possui obras em coleções públicas e em 2013 lançou catálogo sobre sua produção, projeto realizado através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba.
Silvio Rodolfo
Graduado em Pintura (EMBAP/2005), Licenciatura em Filosofia pela Unicesumar. Atualmente faz uma pós em Sociologia e Política, na FESPSP, intitulada: Repensando o Brasil, sociedade, política e história. O ingresso nas Belas Artes se deu pelo incentivo da leitura de livros, em casa, e da rua, sob o skate, ao localizar "picos" para intervenções. Intervenções visuais com a técnica do graffiti spray can art e de movimentos ligados ao vandalismo e a pichação. Partiu de exposições coletivas diversas. Conquistou prêmios em salões com obras em gravura e em cerâmica. Frequentou também ateliês de gravura, mais especificamente o ateliê do Solar do Barão. Sendo orientado por Andreia Lás e Ana Gonzalez. Também possui duas individuais, e procura a autenticidade de cada técnica para mostrar o que melhor expressa, o que passa por experimentos com ferramentas e materiais. Descobre aos poucos que as técnicas diversas e os materiais expressivos que não se conhece e não possui experiência é o que mais importa. Não o que se conhece, mas o que está por vir. A pintura se dá a cada dia, trazendo a preocupação com a escolha sobre o quê deve ser abordado. Suas imagens remetem ao impacto da proximidade com a complexidade urbana, a sociologia, a psique, o capitalismo e relação com o próximo em relação à cidade. Como insights da memória, as formas parecem aleatórias, mas, após sucessivas veladuras, o que permanece se torna familiar.
Toni Graton
Toni Graton (Curitiba) é artista visual, graduado em Gravura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (UNESPAR, 2017). Sua prática se concentra nas linguagens da gravura em metal e da cerâmica, com incursões pontuais em outros meios. Iniciou sua formação em gravura em 2011 no ateliê coletivo do Museu da Gravura Cidade de Curitiba, onde permaneceu até 2020. Em cerâmica, aprofundou sua técnica a partir de 2016, frequentando cursos no Museu Alfredo Andersen e no Centro de Criatividade do Parque São Lourenço. Realizou a exposição individual Reorganização de fragmentos sentidos no Museu da Gravura Cidade de Curitiba, em 2013, e integrou a coletiva Registros, com curadoria de Ricardo Resende, na mesma instituição em 2020. Recebeu o Prêmio Ibema de Gravura (2015) e participou de mostras internacionais como a Bienal Internacional de Grabado y Arte Impreso (Córdoba, Argentina, 2019) e a 17.ª The International Triennial of Small Graphic Forms (Łódź, Polônia, 2020), além de integrar a publicação The Drawing Stall Vol. 1 (2022). Em 2024 participou de diversas exposições em instituições e em espaços independentes em cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Em março de 2025 inaugurou, na Asa BASA em Curitiba, sua segunda individual, “Vaso ao Avesso”, com curadoria de Fabrício Vaz Nunes, centrada em sua produção recente em cerâmica: uma figuração rebuscada e mutante, esmaltação expressiva e um arremesso da arcaica forma do vaso para outra dimensão. No final de 2025 inaugurou sua terceira e mais recente individual: Metabole, na galeria Gruta em São Paulo, com curadoria de Lucas Vellozo e Bianca de Castro.
Andreia Lás
Andréia Las nasceu em Curitiba em 1958, com graduação em Educação Artística pela UFPR/1982 e Pós-graduação em Pesquisa e Ensino da História da Arte na Faculdade de Artes do Paraná (FAP/2008), buscando complementar sua formação em vários cursos, como no Atelier 17 de S.W. Hayter em Paris. Atuante na área das artes visuais desde sua formação, sendo também orientadora nos ateliês do Museu da Gravura Cidade de Curitiba. Seus trabalhos têm referências com aspectos da geometria informal, presentes do neoconcretismo brasileiro, apresentando obras que exploram a linguagem da gravura, com propostas em Serigrafia, Litografia e Xilogravura. Entre os vários prêmios recebidos durante sua trajetória, estão o 56.º Salão Paranaense MAC PR/1999 e o Salão de Arte Jovem do Centro Cultural do Brasil e Estados Unidos em Santos - SP/1986. Fez parte da coordenação e coautoria do projeto e do livro “Solar da Gravura - 25 anos dos ateliês do Museu da Gravura Cidade de Curitiba”, contemplado pela Lei de Incentivo Municipal - Mecenato Subsidiado da Fundação Cultural de Curitiba/2008. Participou de várias exposições coletivas no contexto nacional, como a Mostra Rio Gravura, no Museu da República no Rio de Janeiro/1999; a XII Mostra da Gravura - Curitiba/2000 e a XX Bienal de Curitiba, com a exposição individual "Vindouro", no Museu da Gravura Cidade de Curitiba - Solar do Barão, 2015.
Glaucia Flugel
Artista visual nascida e residente em Curitiba. Formada em Escultura e especialista em História da Arte do Século XX pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), desenvolve pesquisas em cerâmica, gravura, fotografia e bordado. Sua produção investiga as relações entre imagem, palavra e matéria, tendo como eixo questões ligadas ao feminino, à memória e aos afetos. Em diferentes suportes, constrói imagens sobre superfícies irregulares, onde palavras, manchas, fragmentos e gestos se sobrepõem, criando narrativas poéticas que transitam entre presença e ausência, permanência e apagamento. Participou de exposições individuais e coletivas, recebeu premiações e foi contemplada, em 2008, com a Bolsa Produção para Artes Visuais da Fundação Cultural de Curitiba. Sua pesquisa articula diferentes linguagens na construção de obras que exploram as tensões entre materialidade e delicadeza, aproximando processos como o bordado, a cerâmica, a gravura e a fotografia em uma investigação contínua sobre memória, vestígios e o cotidiano.
Secretaria de Estado da Cultura
Carlos Massa Ratinho Junior
Governador do Estado do Paraná
Luciana Casagrande Pereira
Secretária de Estado da Cultura
Elietti de Souza Vilela
Diretora-Geral da Secretaria de Estado da Cultura
André Avelino
Diretor de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura
Cauê Donato
Coordenador do Sistema Estadual de Museus
Fernanda Maldonado
Coordenadora de Comunicação
Museu de Arte Contemporânea do Paraná
Juliane Fuganti
Diretora Geral
Joanes Barauna
Coordenadora do Setor de Acervo
Crislene Bueno de Carvalho Galdino
Coordenadora do Centro de Pesquisa e Documentação
Kamila Kuromiya
Coordenadora do Setor Educativo
Estagiários
Mateus Francisco Kramer Sens
Yasmin Munhoz Tobias de Moraes
Gabriel Rodrigo Santos
Heloisa Gurkievicz dos Santos
Sandra Regina Bernardi Pereira Medeiros
Marcos Dias de Araújo
Lorena Vítoria Neumann Sucodolski
Barbara Haro
Design Gráfico
Amanda Renaly
Comunicação
Alessandro Manoel
Revisão


