Costa Oeste
13 DE JANEIRO DE 2026
SEDE ADALICE ARAÚJO
A exposição é um convite para observar a produção artística que emerge nesse território de encontros. No Oeste do Paraná, a fronteira não é uma linha divisória que delimita, mas um espaço de troca. A proximidade com a Argentina e o Paraguai imprime um caráter singular à produção artística, onde linguagens e referências se cruzam, criando um caldo cultural distinto. A mesma claridade que banha Cascavel se estende pela tríplice fronteira, criando uma constelação criativa na qual identidades se misturam. A condição fronteiriça se mostra um campo fértil de trocas multiculturais e étnicas, que se encontram nas entrelinhas das obras, assim como as tradições e inovações visuais que circulam nesses territórios.
Esta exposição estabelece também um percurso cultural entre duas províncias argentinas que estão na região de fronteira com o Oeste do Paraná, na tríplice fronteira: Chaco e Corrientes. O Rio Paraná, elemento geográfico central, atua não como barreira divisória, mas como um eixo de conexão que facilita novas parcerias e a descoberta da produção artística de nossos vizinhos argentinos.
Destacamos a participação dos artistas argentinos Andres Bancalari e Norma Capponcelli. Em suas propostas, constroem pontes entre universos aparentemente distantes: o cósmico e o terreno, o abstrato e o memorialístico. Esta "Rota da Arte" ao longo do Paraná revela, assim, que as poéticas visuais nos aproximam e residem na capacidade de abraçar, com igual maestria, o universal e o particular, a abstração e a figura, a fria beleza dos sistemas e o calor nostálgico da memória. Do cosmos de Bancalari ao quintal de Capponcelli, convidamos o público a atravessar essa paisagem dual e descobrir os fios invisíveis que as unem.
Esta exposição, juntamente com os artistas da Costa Oeste do Paraná, é testemunho das vozes que conferem visibilidade às formas, cores e texturas produzidas pelos artistas que habitam esse território de passagens.
Neste território de fronteira, os fios criativos tecem uma rede sólida. As obras aqui expostas revelam as contradições e belezas de um território em constante transformação. Brugnera, artista paranaense consagrado e premiado nos maiores salões de arte do Brasil, conhecido como Senhor do Grafite por seus desenhos negros, apresenta aqui a obra “Piso Matriculado”, instalação “site specific”. Brugnera tem uma trajetória internacional, com obras em importantes museus da Europa e dos Estados Unidos.
Na mesma direção, o Coletivo Duas Marias percorre caminho semelhante, premiado recentemente na Bienal da Riviera Romana, em Roma (2025), e com participação no Prêmio Reina Sofía de Pintura y Escultura, em Madrid (2025). Com sua obra “Freya”, o coletivo questiona e reivindica um lugar de igualdade frente à hegemonia masculina na sociedade contemporânea. “Meu corpo, minhas regras”.
O artista Lauro Borges transita livremente entre pintura, fotografia e performance, construindo uma trajetória autônoma. Nesta exposição, nos apresenta três imagens da coleção “Esquecidos”, composta por objetos e coisas coletados ou achados a partir do ato de flanar pela cidade – uma extensão dos fósseis urbanos iniciados em 1999. Já a artista Sirlei Salvadori constrói suas narrativas visuais com signos pessoais impressos sobre tela de algodão, criando uma linguagem íntima e universal, colocando a gravura dentro da pintura. Ambos os artistas possuem trajetórias artísticas já consolidadas por diversos prêmios e participações em salões e mostras de arte nacionais e internacionais.
Em contraponto, apresentamos nesta mostra três artistas em processo de evolução e projeção de suas poéticas visuais: Daniel Carlos Bispo, que captura o cotidiano das ruas com desenhos de personagens anônimos, seja em seus hiper-realismos ou em seus “scribbles”, como o que apresentamos aqui, realizado com caneta BIC; Ela Soares, que entrelaça fios reciclados de alumínio – assim como fazem os pássaros tecelões – em esculturas sensíveis que dialogam com espaço/tempo e natureza/memória, e que recentemente foi premiada no Salão de Campo Mourão; e Marcelo Bongiovanni Korp, artista da fotografia, que mira seu olhar para questionar a transitoriedade da imagem urbana, registrando outdoors vazios como testemunho do efêmero e do transitório da arquitetura do espaço público. “Panfletado” no espaço desta exposição.
Assim como Sagitário mira o coração da Via Láctea, estes artistas aqui apontam suas criações para o centro de suas questões, fortemente influenciadas por essa condição geográfica e cultural única. O céu que nos cobre é metáfora do nosso lugar: entre o local e o universal, entre as tradições e as possibilidades abertas pela fronteira.
Existe, sim, uma luz potente e criativa vinda da Costa Oeste do Paraná e de sua fronteira com a Argentina, além de um belíssimo pôr do sol.
Antonio Carlos Machado
Artista plástico e curador
Andres Bancalari
Brugnera
Coletivo Duas Marias
Daniel Carlos Bispo
Ela Soares
Lauro Borges
Marcelo Bongiovanni Korp
Norma Capponcelli
Sirlei Salvadori.


