Sobrevoo - Rogério Dias 80 anos

Nova exposição do MAC Paraná celebra os 80 anos do artista Rogério Dias

 

DE 29 DE MAIO A 27 DE JULHO DE 2025

Sala 09 do MAC no MON

 

O invisível da matéria

 

Percorrer a obra de Rogério Dias é realizar um sobrevoo atento ao invisível da matéria. O gesto curatorial desta exposição busca não apenas revisitar as suas mais de cinco décadas de criação, mas lançar um olhar crítico e sensível sobre uma produção que transita entre a abstração sussurrada e o contorno tropicalista. Seu trabalho, atravessado por padrões, ideogramas, intenso cromatismo, além colagens em kraft, chita ou brim, se tornou uma referência essencial entre as gerações dos anos 1970 e 1980 no Paraná, estabelecendo conexões profundas entre tradição e experimentação. 

Um dos eixos do trabalho de Rogério Dias está na releitura da paisagem. Inspirado pela lição de Portinari - para quem a paisagem pode ser concebida como um campo de cor e não apenas representação literal - Dias constrói horizontes pictóricos em que a cor é a protagonista. Em suas telas, o artista frequentemente utiliza sutis degradês, com faixas cromáticas dividindo os planos e passagens fluidas de uma cor a outra, em vez de delinear nuvens ou detalhes naturalistas. Essa abordagem das cores como atmosfera aproxima-se da sensibilidade de Mark Rothko, de quem Rogério absorveu a influência dos campos cromáticos que evocam emoções com contornos difusos.

A criação pioneira de uma Pattern Art Tropicalista em tons frios, inspirada pela observação de tecidos populares de chita e frisos religiosos, é outro marco de sua contribuição artística. Dias absorveu e reinterpretou elementos populares, convertendo-os em poderosos instrumentos visuais e críticos, refletindo uma identidade cultural complexa e experimental. Algumas dessas obras pioneiras, premiadas em salões de arte na década de 1980, hoje integram o acervo do MAC-PR e atestam o valor histórico de sua pesquisa visual. 

Paralelamente à invenção pictórica, Rogério Dias desenvolveu uma produção singular em esculturas e objetos tridimensionais, marcada pelo reaproveitamento lúdico de materiais encontrados. Galhos retorcidos, pequenos troncos, nós de bambu, madeiras trazidas pela maré, pedaços de sucata e descartes diversos ganham nova vida em suas mãos. Dessa alquimia de materiais brutos surgem obras híbridas - parte bichos, parte totens de forte apelo sensorial e simbólico. 

Desde cedo integrado à cena underground curitibana, Rogério Dias desenvolveu um percurso marcado pelo diálogo aberto com diferentes linguagens. Sua participação ativa em movimentos coletivos como o Teztura Corporal, XPTO e Casa de Bixo reafirma seu compromisso com uma arte colaborativa e libertária, explorando formas de expressão que desafiaram a normatividade estética e cultural. 

A presença recorrente de ideogramas em sua produção reforça seu interesse pela síntese visual e pelo gesto rápido e caligráfico, evocando a dimensão poética da imagem. Esses signos gráficos dialogam diretamente com a poesia concreta e com práticas experimentais, estabelecendo uma forma visual própria que ultrapassa fronteiras entre palavra, desenho e pintura. 

Em seu percurso artístico, Dias conjuga a postura quixotesca de resistência poética diante das adversidades com uma vocação franciscana de despojamento e conexão profunda com a natureza. Aos 80 anos, o artista mantém-se firme como se visse o invisível em sua reafirmação de fé no gesto criativo como ato de resistência e validação da beleza frente às dificuldades do tempo presente. 

“Sobrevoo” não apenas celebra essa trajetória, mas propõe um olhar amplo sobre a relevância atual da obra de Rogério Dias e do seu olhar fenomenológico sobre o visível que sempre carrega consigo uma forma oculta, destacando seu legado como inspiração essencial para artistas contemporâneos e públicos atentos à força transformadora da arte.

 

Arthur L. do Carmo
Curador


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O paranaense Rogério Dias (nascido em Jacarezinho, em 1945) é um artista polivalente que atua como pintor, desenhista, gravador, escultor, designer gráfico, cartunista, ator, decorador, ilustrador, cenógrafo e publicitário, com mais de cinco décadas de carreira.